O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um tema que desperta interesse crescente em famílias, profissionais de saúde e pesquisadores. Uma das dúvidas mais frequentes entre pais e cuidadores é: o autismo é genético? Com os avanços da ciência e da genética, hoje já existem respostas cada vez mais precisas sobre a origem do TEA, embora ainda haja pontos em aberto que exigem estudos mais aprofundados.
O autismo é uma condição neurológica caracterizada por dificuldades na comunicação social, padrões de comportamento repetitivos e interesses restritos. Ele não é uma doença, mas sim uma condição do neurodesenvolvimento que acompanha a pessoa ao longo da vida. A origem do autismo é multifatorial, ou seja, não há um único fator determinante, mas sim uma combinação de aspectos genéticos, ambientais e neurológicos. Entre esses fatores, a genética é considerada o elemento de maior peso.
Diversos estudos científicos apontam que a genética exerce uma influência significativa no desenvolvimento do autismo. Pesquisas com gêmeos idênticos, que compartilham 100% do material genético, mostram taxas de concordância muito mais altas de TEA em comparação com gêmeos fraternos, que compartilham apenas 50%. Isso indica que a herança genética desempenha um papel essencial.
No entanto, o autismo não é causado por um único gene. Pelo contrário, trata-se de um transtorno poligênico, ou seja, envolve múltiplas variações genéticas que, em conjunto, aumentam a probabilidade de uma pessoa apresentar características do espectro autista. Atualmente, mais de mil genes já foram identificados como associados ao TEA, muitos deles relacionados ao desenvolvimento cerebral, sinapses e comunicação entre neurônios.
É importante compreender que ter predisposição genética não significa que o indivíduo necessariamente terá autismo. A presença dessas variantes aumenta o risco, mas a manifestação depende também da interação com fatores ambientais e epigenéticos.
A epigenética estuda como o ambiente pode “ligar” ou “desligar” determinados genes, influenciando o modo como eles se expressam. Isso significa que, mesmo em indivíduos com predisposição genética, elementos externos podem atuar como gatilhos. Entre esses fatores ambientais estão: exposição a poluentes, complicações durante a gestação, idade avançada dos pais, infecções maternas e até o estresse durante a gravidez.
É fundamental destacar que nenhum desses fatores isoladamente causa autismo. Eles podem apenas aumentar o risco em pessoas já geneticamente predispostas. Dessa forma, a explicação mais aceita hoje é que o TEA resulta de uma interação entre predisposição genética e fatores ambientais.
Muitos pais se perguntam se o autismo pode ser herdado diretamente. A resposta é sim, mas de forma complexa. O risco de recorrência em famílias é maior do que na população geral. Estudos mostram que irmãos de crianças autistas têm uma probabilidade entre 10% e 20% de também apresentarem o transtorno, enquanto na população geral a prevalência é de aproximadamente 1% a 2%.
Além disso, mesmo em famílias sem histórico aparente de TEA, mutações genéticas chamadas de novo podem surgir espontaneamente no DNA do embrião durante a concepção. Essas mutações não foram herdadas dos pais, mas ainda assim podem contribuir para o desenvolvimento do autismo.
Portanto, a herança genética do autismo não segue um padrão simples como ocorre em doenças monogênicas, mas sim um modelo multifatorial e poligênico. Isso significa que a presença de genes associados não garante a manifestação do TEA, apenas aumenta a susceptibilidade.
O avanço das tecnologias de sequenciamento genético trouxe um salto significativo na compreensão do TEA. Hoje é possível realizar testes genéticos específicos, como o sequenciamento do exoma completo, que ajudam a identificar mutações associadas ao autismo. Esses exames são importantes especialmente em casos de diagnóstico precoce, permitindo que famílias compreendam melhor as origens do transtorno e busquem intervenções adequadas.
Cientistas também investigam como determinadas variantes genéticas se relacionam com sintomas específicos do espectro. Por exemplo, algumas mutações estão mais ligadas a dificuldades de linguagem, enquanto outras podem impactar funções motoras ou de cognição social. Esse tipo de estudo abre caminho para a chamada medicina personalizada, na qual tratamentos e intervenções poderão ser adaptados de acordo com o perfil genético de cada indivíduo.
Embora a genética seja um fator de grande peso, ela não define sozinha o destino de uma criança. O diagnóstico de autismo é baseado em critérios clínicos, observação de comportamento e desenvolvimento, não apenas em exames genéticos. Além disso, intervenções precoces, como terapias comportamentais, fonoaudiologia e apoio educacional, podem promover avanços significativos na qualidade de vida.
Outro ponto essencial é combater mitos. Muitas pessoas ainda associam o autismo a erros cometidos pelos pais, como supostas falhas na criação. A ciência já demonstrou de forma clara que isso é incorreto. O autismo não é causado por fatores emocionais ou escolhas de criação, mas sim por mecanismos complexos que envolvem o funcionamento cerebral e a genética.
Entender que o autismo tem forte componente genético pode ajudar famílias a lidar melhor com o diagnóstico. Saber que se trata de uma condição de base biológica reduz sentimentos de culpa e abre espaço para buscar informação e suporte. Além disso, a ciência já mostra que pessoas autistas podem ter habilidades excepcionais, como memória diferenciada, pensamento lógico avançado e criatividade singular.
Ao reconhecer que a genética influencia o TEA, mas não determina limitações absolutas, famílias e profissionais podem focar no que realmente importa: oferecer apoio, desenvolver potencialidades e promover inclusão social.
A resposta é que o autismo possui uma forte base genética, mas não é exclusivamente determinado por ela. O TEA é resultado da combinação de variantes genéticas, fatores epigenéticos e influências ambientais. Isso significa que, embora a herança familiar aumente o risco, cada indivíduo é único e pode apresentar diferentes manifestações do espectro.
A ciência continua avançando para compreender melhor essa interação, e os estudos genéticos já estão abrindo caminhos para diagnósticos mais precisos e, futuramente, intervenções personalizadas. Mais importante ainda é lembrar que o autismo não define quem a pessoa é. Com apoio adequado, inclusão e valorização de suas habilidades, indivíduos autistas podem ter uma vida plena e contribuir de forma significativa para a sociedade.