Meu Filho e Eu (2016)

Meu filho e eu

Meu Filho e Eu (2016), dirigido por Philippe Lioret, é um filme sensível e profundamente humano que aborda temas universais como identidade, pertencimento, paternidade e reconciliação com o passado. Longe de apelos melodramáticos fáceis, a obra constrói sua força justamente na delicadeza com que trata relações quebradas e afetos não resolvidos, convidando o espectador a refletir sobre o que, de fato, define uma família.

A narrativa acompanha Mathieu, um homem adulto que descobre a morte do pai que nunca conheceu. Criado apenas pela mãe, ele cresce carregando lacunas afetivas e perguntas sem resposta. Ao saber que esse pai ausente deixou outros filhos e uma história inteira da qual ele foi excluído, Mathieu decide se aproximar dessa família desconhecida. Esse ponto de partida simples dá origem a um drama contido, mas emocionalmente potente, no qual cada gesto, silêncio e olhar carrega significados profundos.

Um dos grandes méritos do filme é a forma como retrata o impacto da ausência paterna ao longo da vida. Meu Filho e Eu não transforma o pai ausente em vilão nem idealiza sua figura. Pelo contrário, apresenta-o como um homem comum, cheio de contradições, escolhas equivocadas e limitações emocionais. Essa abordagem madura impede julgamentos fáceis e amplia a compreensão sobre as complexidades das relações humanas.

A atuação do protagonista é marcada pela introspecção. Mathieu é um personagem que observa mais do que fala, e o espectador é convidado a acompanhar sua jornada interna: o conflito entre o desejo de pertencimento e o medo de rejeição. Ao conviver com os meio-irmãos, ele percebe que o pai que lhe faltou esteve presente para outros, o que gera dor, ciúme, mas também um processo gradual de aceitação.

Visualmente, o filme adota uma estética sóbria, com cenários naturais e enquadramentos que reforçam a sensação de silêncio emocional. A fotografia discreta e a trilha sonora contida contribuem para criar um clima intimista, em que o foco está sempre nos personagens e em suas relações. Nada parece excessivo ou artificial, o que torna a experiência ainda mais verdadeira.

A importância de Meu Filho e Eu reside justamente em sua capacidade de tratar temas sensíveis com respeito e profundidade. Em uma sociedade marcada por diferentes configurações familiares, o filme dialoga com realidades cada vez mais comuns: filhos criados por um único responsável, laços interrompidos, reencontros tardios e a busca por identidade. Ele mostra que o passado não pode ser mudado, mas pode ser compreendido, ressignificado e, em certa medida, reconciliado.

Além disso, o longa destaca o valor da empatia. Ao longo da história, não há vencedores ou culpados absolutos. Cada personagem carrega suas próprias dores e limitações, e o aprendizado maior está na escuta e no reconhecimento do outro. Essa mensagem torna o filme especialmente relevante em tempos de relações aceleradas e diálogos cada vez mais frágeis.

Em síntese, Meu Filho e Eu é um drama sensível, silencioso e necessário. Não oferece respostas prontas nem finais idealizados, mas propõe um olhar honesto sobre as marcas deixadas pela ausência e sobre a possibilidade de construir novos vínculos, mesmo quando o tempo parece ter passado. É um filme que emociona sem exageros e permanece no espectador justamente por sua humanidade, reafirmando o poder do cinema como espaço de reflexão sobre quem somos e de onde viemos.

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