O filme Tudo Que Quero (Please Stand By, 2017) é daqueles dramas leves que conquistam o espectador pela sensibilidade e pela humanidade. Dirigido por Ben Lewin, o longa aborda temas como autismo, amadurecimento, independência e relações familiares sem recorrer a estereótipos fáceis ou exageros emocionais. É uma história simples na forma, mas profunda no que provoca.
A trama acompanha Wendy (Dakota Fanning), uma jovem autista extremamente inteligente e apaixonada por Star Trek. Vivendo em uma residência assistida, ela sonha em ter autonomia e provar que é capaz de conduzir a própria vida. Quando escreve um roteiro para um concurso da famosa franquia de ficção científica e percebe que ninguém a ajudará a enviá-lo, Wendy toma uma decisão corajosa: foge sozinha para entregar o texto pessoalmente em Hollywood.
O grande destaque de Tudo Que Quero é a construção de sua protagonista. Wendy não é retratada como alguém a ser “consertado”, mas como uma jovem com desejos, limites, talentos e vontades muito claras. O filme respeita seu ponto de vista e convida o público a enxergar o mundo a partir de sua lógica, suas regras e suas inseguranças.
Dakota Fanning entrega uma atuação sensível e contida, evitando caricaturas. Sua Wendy é direta, metódica, literal — mas também afetuosa, determinada e corajosa. Essa abordagem torna o filme especialmente relevante para debates sobre inclusão, neurodiversidade e autonomia de pessoas no espectro autista.
Estruturalmente, Tudo Que Quero funciona como um road movie. A viagem inesperada de Wendy a coloca em contato com situações novas, pessoas desconhecidas e desafios que testam seus limites. Cada obstáculo enfrentado reforça o tema central do filme: crescer também é aprender a lidar com o imprevisível.
Ao longo do caminho, a narrativa constrói momentos de tensão, humor e emoção na medida certa. O roteiro evita discursos didáticos e permite que as mensagens surjam de forma orgânica, através das experiências vividas pela personagem.
Outro ponto importante do filme é a relação de Wendy com sua irmã Audrey (Alice Eve), que vive o conflito entre proteger e permitir que a irmã seja independente. Esse dilema é comum em muitas famílias e é tratado com empatia e realismo. O filme não aponta vilões: todos os personagens estão, à sua maneira, tentando fazer o que acreditam ser o melhor.
Essa abordagem equilibrada amplia o alcance emocional do longa, tornando-o relevante não apenas para quem se interessa por filmes sobre autismo, mas também para pais, cuidadores e educadores.
Tudo Que Quero se destaca por representar o autismo de forma respeitosa, sem romantizar nem dramatizar em excesso. O filme reforça a ideia de que pessoas autistas não precisam ser encaixadas em padrões rígidos, mas sim compreendidas em suas singularidades.
Em tempos em que a discussão sobre inclusão, diversidade e saúde emocional ganha cada vez mais espaço, o filme se mostra atual e necessário. Ele provoca uma reflexão importante: até que ponto o excesso de proteção pode impedir o desenvolvimento e a autonomia?
Sem dúvida. Tudo Que Quero é um filme tocante, acessível e inspirador. Não busca chocar, mas sensibilizar. Não pretende ensinar, mas convidar à empatia. É uma obra que deixa uma sensação agradável após o término, ao mesmo tempo em que desperta reflexões profundas sobre liberdade, confiança e pertencimento.
Recomendado para quem gosta de histórias humanas, personagens bem construídos e narrativas que mostram que crescer, no fim das contas, é aprender a confiar — em si mesmo e no outro.
Tudo Que Quero é um filme sobre coragem silenciosa. Sobre dar passos próprios, mesmo quando o mundo insiste em segurar sua mão. Uma bela lembrança de que autonomia também é uma forma de amor.