Autismo: uma abordagem psicoterápica
“Ouve-me, ouve o meu silêncio. O que falo nunca é o que falo e sim outra coisa. Capta essa outra coisa de que na verdade falo porque eu mesma não posso.” (Clarice Lispector)
Como escutar alguém que não fala com palavras? Como se aproximar de uma criança que parece viver num mundo próprio, inacessível? Essas são perguntas que atravessam a clínica com o autismo e desafiam qualquer terapeuta que se proponha a acompanhar essas subjetividades tão singulares.
Longe de fórmulas prontas, a abordagem psicoterápica com autistas exige escuta sensível, empatia ativa e, acima de tudo, respeito pelo tempo e pela linguagem do outro — mesmo que essa linguagem se manifeste no corpo, no gesto, no silêncio ou na repetição.
Neste artigo, exploramos caminhos terapêuticos possíveis para acolher e escutar o autismo. Técnicas como o espelhamento e a ecolalia, antes vistas como sintomas, revelam-se aqui como ferramentas preciosas de conexão. Apoiado em autores como Winnicott, Tustin, Dolto e Bettelheim, o texto mostra que a clínica do autismo é também uma clínica do encontro — ainda que esse encontro se dê nos intervalos entre uma palavra e outra, entre um olhar e um gesto.
A autora descreve o contato com o autismo como um desafio constante: “cada passo é uma batalha”, onde o terapeuta precisa estar preparado para lidar com frustração, silêncio e retraimento. Ela destaca que a ética da escuta deve considerar “a maneira de estar no mundo” do autista, reconhecendo sua singularidade.
Dois perigos ameaçam a prática clínica: de um lado, o terapeuta que nada faz diante da ausência de resposta; do outro, aquele que se mostra onipotente, acreditando compreender tudo. Ambas as posturas fracassam. A verdadeira escuta exige sensibilidade, contenção e abertura para o que o autista pode expressar — mesmo que de forma não verbal.
Um dos destaques do artigo é o uso do espelhamento como técnica terapêutica. Inspirada em Carl Rogers e Winnicott, essa prática se baseia na observação da relação mãe-bebê. Rogers propõe “a técnica de espelhamento dos movimentos e dos sons emitidos pelos autistas”, para facilitar a construção de vínculos.
Winnicott reforça a ideia ao afirmar que “é necessário espelhar e ser espelhado para que se exista psiquicamente”, sendo o rosto da mãe “precursor do espelho para a criança”. Essa técnica permite que o autista se perceba como sujeito a partir do olhar e da repetição empática do terapeuta.
Outra técnica importante abordada é a ecolalia, a repetição de palavras ou frases que, segundo o senso comum, é um sintoma do autismo. No entanto, o texto propõe uma nova leitura: “a ecolalia deve ser olhada não como impedimento ao desenvolvimento, mas como uma forma de propiciá-lo”. Trata-se de uma tentativa de aproximação do objeto, de adesão ao outro e de produção de sentido.
Safra (1996) interpreta a ecolalia como um objeto ao qual o autista “se apega ao horror à dispersão do self”, e sua repetição pode ser “uma forma de contar novamente uma mesma história”. O terapeuta, nesse caso, deve responder com a mesma entonação, acolhendo a fala como expressão de identidade.
O texto ressalta que os autistas muitas vezes não se comunicam por palavras, mas pelo corpo — por meio de posturas, gestos e expressões. “Eles não vão se utilizar dos brinquedos, mas sim do próprio corpo e do corpo do analista para comunicar suas angústias”.
Essa comunicação corporal está relacionada às experiências iniciais da vida. Referências como Esther Bick, Frances Tustin e Didier Anzieu são citadas para destacar a importância do corpo e da pele como bases do ego primitivo. Permitir o contato corporal — sem forçar — é uma forma de respeitar a sensibilidade do autista e criar vias para a subjetivação.
Autores como Bettelheim, Dolto, Tustin, Winnicott e outros são convocados para mostrar que o analista deve assumir uma postura ativa, empática e não intrusiva. Segundo Bettelheim, “os autistas tiveram, como uma das causas etiológicas, o sentimento de ódio inconsciente materno, assim como o sentimento constante da morte iminente”. Sua defesa? Retraimento e autossilenciamento.
Tustin (1990) afirma que o analista “não deve ser passivo diante do paciente autista, pois pode ser tomado como objeto autista”, e reforça a necessidade de empatia e imaginação na condução da sessão.
Dolto sugere uma técnica delicada e poderosa: envolver as mães no processo terapêutico, pedindo que revisitem memórias e fotos para identificar o momento em que a comunicação com o filho foi rompida. Uma vez identificado o fato (como uma morte, mudança, internação ou separação), ela recomenda que a mãe “conte ao filho o que aconteceu, de forma afetiva e reconfortante”, preferencialmente na hora de dormir. Segundo ela, esse gesto pode “reencontrar a imagem regressiva do corpo sadio” — especialmente até os 3 anos de idade.
Para Winnicott, o autismo é “uma organização defensiva no sentido de adquirir uma invulnerabilidade diante da ameaça de sentir agonia impensável”. Essa agonia está relacionada a falhas primárias na relação mãe-bebê, antes mesmo da aquisição da linguagem.
Winnicott defende uma “análise modificada”, adaptada à especificidade do autismo. “Em certos casos, não estamos fazendo análise, mas somos, e continuamos a ser, analistas fazendo outra coisa, que julgamos apropriada para a ocasião”. Seu objetivo permanece: “pôr em palavras o consciente em estado nascente”.
O terapeuta, nesse modelo, assume a função de holding, oferecendo um ambiente psíquico seguro e confiável, tal como a mãe suficientemente boa, capaz de acolher e nomear as experiências do bebê.
O texto conclui afirmando que o autismo “é consequência de falhas internas e/ou externas e da exposição a cargas traumáticas insuportáveis”, e que a psicoterapia deve ir além dos sintomas, priorizando a subjetivação do sofrimento.
O psicoterapeuta precisa se apresentar como “um outro confiável, que propõe alguma coisa diferente da solidão”, e que acolhe a demanda implícita por ajuda. O erro comum é tentar quebrar as defesas do autista, o que pode levá-lo ao risco de psicose. Cada autista organiza seu mundo de forma singular, com base em sua genética e história de vida.
Por fim, a autora propõe que se ouça o silêncio do autista como forma de expressão e presença. “O sofrimento que o autista cala, assim como as angústias que silencia, nos colocam questões sobre a necessidade de cada vez mais a psicanálise pensar sobre eles”.
Se você se interessa por temas como autismo, síndrome de Asperger e psicoterapia infantil, o livro “Autismo – Novas Reflexões” é leitura essencial. Nele, o autor aprofunda os aspectos emocionais e diagnósticos do espectro autista, com reflexões clínicas e exemplos reais que ajudam na compreensão do comportamento autista sob diferentes abordagens.
Adquira agora e amplie seu conhecimento sobre esse universo tão complexo quanto fascinante. Esse é um convite à empatia, ao conhecimento e ao respeito à diversidade humana.