AUTISMO: É UMA PSICOSE?
Apesar dos avanços no campo da saúde mental, ainda persiste uma dúvida antiga e recorrente: o autismo seria uma forma de psicose? Essa confusão, que atravessa décadas de história da psiquiatria e da psicanálise, continua influenciando diagnósticos e tratamentos, muitas vezes de maneira equivocada.
Neste artigo, exploramos as origens desse equívoco, analisamos as diferenças fundamentais entre autismo e psicose — desde o surgimento na infância até os mecanismos psíquicos envolvidos — e destacamos a importância de uma abordagem clínica cuidadosa. Como lembra Éric Laurent, “estaremos sempre buscando fazer com que fenômenos complexos como o autismo sejam tratados como que efetivamente são: fenômenos humanos”, exigindo escuta, sensibilidade e precisão diagnóstica.
Se você é profissional da saúde, familiar de uma criança autista ou simplesmente alguém interessado no tema, este conteúdo vai ajudar a esclarecer as nuances por trás dessa importante diferenciação.
A origem do mal-entendido remonta ao início do século XX. Leo Kanner, ao descrever o autismo em 1943, utilizou o termo emprestado de Bleuler (1912), que o usava para se referir a um sintoma da psicose. Essa associação precoce contribuiu para que muitas crianças autistas fossem erroneamente diagnosticadas como psicóticas, “frequentemente internadas em manicômios”, como lembra L. Petty (1984).
Até hoje, essa confusão persiste, especialmente quando os sintomas do autismo, como retraimento e fala incomum, se intensificam na adolescência ou na vida adulta.
A etiologia do autismo ainda é pouco conhecida, gerando diversas teorias e classificações. Para muitos pesquisadores, trata-se de uma “síndrome comportamental com etiologias diferentes na qual o processo do desenvolvimento infantil se encontra distorcido” (Gillbert, Rutter apud Bosa, Callas, 2000).
Existem explicações de base genética, neurológica e relacional. A neurociência, por exemplo, aponta para “anomalias anatômicas ou fisiológicas do sistema nervoso central” (Stern, 1991), enquanto a psicanálise foca nas falhas da constituição psíquica nos primeiros vínculos com o outro.
Segundo Frances Tustin (1975), o autismo é “uma defesa frente ao encontro prematuro e traumático com o mundo externo”, que leva a criança a se retrair profundamente, comprometendo seu desenvolvimento psíquico.
Já para Marie-Christine Laznik (2000), o autismo nasce de uma “falha com relação ao outro, um encontro que não aconteceu ou uma ruptura muito precoce”, impedindo a criança de acessar o mundo da linguagem.
Laznik destaca ainda dois sinais estruturais:
a ausência de troca de olhares entre mãe e bebê
o “fracasso do ciclo pulsional completo”, ou seja, uma interrupção no circuito afetivo e corporal da criança com o ambiente.
O artigo reforça que quanto mais cedo se inicia a intervenção, melhores são os resultados. Courchesne (2011), da Universidade de San Diego, explica que “a criança autista nasce com um número excessivo de neurônios, que formam conexões inadequadas”, e que essas conexões podem ser remodeladas “através das milhares de interações com a mãe”, promovidas por terapias precoces.
A principal distinção entre o autismo e a psicose reside no momento do surgimento, na estrutura do sujeito e nos mecanismos psíquicos envolvidos:
O autismo se estrutura nos dois primeiros anos de vida (Kanner, 1943), enquanto a psicose costuma ser desencadeada na adolescência ou vida adulta (Nasio, 2011).
No autismo, o fracasso está no “não reconhecimento do bebê como sujeito”, na falha da função materna em nomear o corpo da criança (Laznik, 1999).
Na psicose, a função materna é “invasiva e aniquiladora”, impedindo o bebê de se separar dela psiquicamente (Jardim, 2000).
A função paterna está presente, ainda que frágil, no autismo. Já na psicose, ela “é enfraquecida ou inexistente”, segundo Jardim e Bergeret.
Mecanismos de defesa também diferem:
No autismo, predominam “exclusão e regressão” como reações ao trauma precoce (Tustin).
Na psicose, há recusa da realidade, resultando em delírios e alucinações (Lerner, 2010).
O nível intelectual também pode ajudar na diferenciação. No autismo, pode haver oscilações entre limitações e altas capacidades. Na psicose, o nível intelectual costuma estar preservado.
Além disso, o autista evita o contato corporal e o olhar direto, apresenta repetições de palavras (ecolalias) e mostra inibição do pensamento. Na psicose, há confusão de pensamento, alucinações frequentes e fantasias primitivas.
O texto dedica uma seção especial ao diagnóstico diferencial entre psicose e Transtorno de Asperger, que é uma forma mais sutil de autismo. Na adolescência, o Asperger pode apresentar sintomas que se assemelham à psicose:
Solilóquios frequentes, fala com pouca conexão lógica, crenças no sobrenatural e retraimento social.
Crises de ansiedade diante do contato social, obsessões, como o medo extremo de contaminação.
Emoções imaturas e expressões faciais incomuns.
Apesar dessas semelhanças, essas manifestações não devem ser confundidas com uma estrutura psicótica, e sim compreendidas dentro da lógica do autismo.
Apesar das sobreposições sintomáticas, o artigo conclui de forma categórica: “o autismo não é a expressão mais inicial da psicose”. As duas condições têm etiologias, manifestações e evoluções diferentes, e confundí-las leva a erros diagnósticos graves — como os cometidos no passado, com o uso de eletrochoques ou internações desnecessárias em instituições psiquiátricas.
O texto finaliza com um apelo: que o diagnóstico diferencial entre autismo e psicose seja realizado por especialistas qualificados, com profundo conhecimento das estruturas subjetivas envolvidas.
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