“Dizendo de outra forma: o autismo estaria situado na conjugação de uma marca orgânica secundária somada a uma marca psicogênica. Quanto mais entendermos a contribuição entre a predisposição genética e as influências ambientais, mais perto estaremos da compreensão da individualidade do autismo.”
Por Sonia Caldas Serra
O autismo não deve ser compreendido como uma condição de origem exclusivamente genética. A psicanálise considera que experiências traumáticas precoces, especialmente relacionadas à separação da figura materna, podem ser determinantes para o desenvolvimento de um quadro autista. Já a neurociência contribui com evidências de que o ambiente modifica a expressão genética — conceito central da epigenética — demonstrando que o estresse intenso pode desencadear ou agravar condições neurológicas.
H3>Psicanálise: o trauma da separação materna como ponto de partida
A psicanalista Frances Tustin introduziu o conceito de autismo primário normal, uma fase protetiva do desenvolvimento infantil. Quando essa fase é abruptamente interrompida por traumas — como a separação precoce da mãe —, pode evoluir para o autismo patológico, um mecanismo de defesa que leva a criança a se recolher do mundo externo.
Bruno Bettelheim e D.W. Winnicott também reforçam que o autismo está relacionado ao desenvolvimento emocional e ao vínculo afetivo inicial. O autista, para se proteger de estímulos traumáticos, pode desenvolver barreiras sensoriais que dificultam o contato social e emocional.
H3>Neurociência: o ambiente como modulador da genética
Com os avanços da neuroimagem e da biotecnologia, tornou-se possível observar como a interação entre mãe e bebê influencia diretamente a estrutura e funcionamento do cérebro. Pesquisas indicam que a palavra materna e o afeto têm impacto direto sobre as conexões neurais do bebê. Estímulos negativos ou a ausência deles podem alterar o desenvolvimento cerebral.
Estudos como os de Bruce McEwen (2002) e Seth Pollack (2008) revelam que eventos traumáticos e ambientes negligentes, especialmente nos primeiros anos de vida, geram alterações nos telômeros, nas taxas de oxitocina e até na atividade de genes relacionados ao estresse, como o CRH. Isso reforça a ideia de que o meio ambiente é decisivo na manifestação de distúrbios como o autismo.
Um ponto-chave abordado no artigo é a plasticidade neural, ou seja, a capacidade do cérebro de se reorganizar em resposta a estímulos externos. Isso significa que intervenções precoces — emocionais, terapêuticas e sociais — podem melhorar significativamente o prognóstico de crianças com autismo.
Além disso, pesquisas da Universidade de Amsterdã e da USP comprovam que a psicoterapia modifica a estrutura cerebral, o que valida a eficácia de abordagens integradas entre psicologia e neurociência.
Embora haja evidências de predisposição genética no autismo, o artigo sugere que essas alterações genéticas muitas vezes podem ser secundárias — consequência da interação com um ambiente adverso. Estudos como os do neuropsicólogo Stephen Scherer mostram que cada criança autista possui uma combinação única de alterações genéticas interligadas à sua história de vida.
A epigenética mostra que fatores como afeto, rejeição, negligência ou estresse precoce têm poder para ativar ou silenciar genes. Essa compreensão reforça a tese de que o autismo não tem uma causa única, mas sim múltiplos fatores de risco que atuam em conjunto.
A principal contribuição do artigo está em sua proposta de um diálogo interdisciplinar entre psicanálise e neurociência, ultrapassando a dicotomia entre natureza e cultura. A autora propõe que a integração dessas abordagens abre novos caminhos para compreender e intervir no autismo.
Esse enfoque é essencial para profissionais da saúde, educadores, terapeutas e familiares que buscam uma abordagem mais humanizada e científica do autismo infantil. O texto defende que entender o autismo é compreender as relações humanas desde a gestação, passando pela linguagem, pelo afeto e pelo impacto dos traumas.
O autismo, segundo este estudo, é uma condição multifatorial que exige a conjugação entre genética e experiência, ciência e subjetividade. Compreender o autismo passa por entender como o estresse precoce, o vínculo afetivo e as experiências traumáticas modulam a expressão genética. A interdisciplinaridade é não apenas bem-vinda, mas essencial para o avanço das pesquisas e para o acolhimento mais sensível às pessoas com TEA.
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