Autismo e empatia: por que esse mito precisa ser revisto?

Autismo e empatia: entenda o mito e a dupla empatia

Pessoas autistas podem sentir empatia. A relação entre autismo e empatia varia entre indivíduos e não pode ser resumida à ideia de que todos sentem pouco ou não se importam com os outros. Compreender sentimentos, compartilhar emoções e demonstrar cuidado são aspectos diferentes.

Uma resposta inesperada, um silêncio ou a ausência de contato visual não permitem, isoladamente, concluir o que alguém está sentindo.

Pessoas autistas não têm empatia?

Essa generalização desconsidera a diversidade do espectro. Em pesquisa qualitativa com 76 participantes autistas, descrita pelos próprios pesquisadores na National Autistic Society, apareceram experiências variadas: algumas pessoas relataram dificuldades, enquanto outras descreveram respostas emocionais intensas.

Os autores reconhecem limites do estudo: seus resultados não representam necessariamente todas as pessoas autistas. Portanto, trocar o estereótipo da ausência de empatia pela afirmação de que todo autista tem empatia elevada também seria uma simplificação. autism.org.uk

Sentir, compreender e demonstrar são coisas diferentes

Para entender o tema, vale distinguir:

  • Empatia cognitiva: compreender a perspectiva e os estados emocionais de outra pessoa.
  • Empatia afetiva: compartilhar ou responder emocionalmente ao que o outro sente.
  • Demonstração de cuidado: a maneira de expressar apoio, que depende também da comunicação, das preferências e do contexto.

Essas dimensões não precisam aparecer da mesma forma ou intensidade. Ter dificuldade para interpretar uma indireta não equivale, automaticamente, a não se preocupar com alguém.

Imagine uma pessoa que, ao ouvir um relato difícil, oferece uma solução prática. Quem esperava palavras de conforto pode interpretar a resposta como frieza. Entretanto, oferecer ajuda pode ter sido sua intenção. Para compreender aquela interação, é preciso conversar, em vez de deduzir sentimentos apenas pela reação.

O que é a dupla empatia no autismo?

A teoria da dupla empatia, apresentada pelo pesquisador Damian Milton, propõe que dificuldades de compreensão entre pessoas autistas e não autistas podem ser mútuas.

Segundo essa perspectiva, diferenças na comunicação e nas experiências de vida podem dificultar a interpretação das intenções de ambos os lados. A pessoa não autista também pode compreender equivocadamente a experiência autista.

Essa teoria amplia o olhar sobre as relações, sem negar dificuldades individuais ou necessidades de suporte. Ela convida a perguntar como cada participante pode contribuir para uma comunicação mais compreensível e respeitosa.

A explicação do autor está disponível na National Autistic Society. autism.org.uk

Como favorecer a compreensão no dia a dia?

Algumas atitudes podem ajudar a construir o diálogo:

  • Expresse suas necessidades: “Quero apenas que você me escute agora” pode ser mais claro do que esperar que o outro adivinhe.
  • Pergunte antes de interpretar: “Você prefere conversar ou ficar um pouco em silêncio?”
  • Respeite diferentes formas de comunicação: falar, escrever e usar outros recursos são possibilidades.
  • Combine formas de oferecer apoio: pergunte se a pessoa deseja companhia, ajuda prática ou espaço.
  • Considere o contexto: cansaço, desconforto e sobrecarga podem interferir na interação.

Essas sugestões devem ser ajustadas às preferências de cada pessoa.

Compreender antes de julgar

Conversar sobre autismo e empatia exige abandonar respostas prontas e escutar experiências individuais. Nenhum comportamento isolado é suficiente para definir a capacidade de alguém sentir ou estabelecer vínculos.

Para continuar a leitura, conheça também o artigo sobre autismo na vida adulta.

Compartilhe este artigo para ampliar essa conversa e ajudar a desfazer preconceitos.

Conteúdo educativo. Não substitui avaliação ou acompanhamento profissional individualizado.

Os comentários estão encerrados.