Autismo e rotina: por que mudanças podem ser tão difíceis?

autismo e rotina

Para algumas pessoas autistas, uma mudança aparentemente pequena pode representar muito mais do que um simples imprevisto.

Trocar o horário de um compromisso, mudar o caminho para o trabalho, cancelar um passeio ou receber uma visita inesperada pode provocar desconforto, ansiedade ou necessidade de algum tempo para se reorganizar.

Mas isso significa que todo autista precisa seguir uma rotina rígida?

Não. O autismo é um espectro e existe grande diversidade na forma como cada pessoa vivencia a necessidade de rotina e previsibilidade. Ainda assim, a preferência por padrões, a dificuldade diante de mudanças e a necessidade de saber antecipadamente o que acontecerá podem estar presentes no TEA.

Por que a rotina pode ser importante no autismo?

Para algumas pessoas autistas, rotina não significa simplesmente gostar de fazer tudo sempre da mesma maneira.

Ela pode tornar o cotidiano mais previsível.

Quando sabemos o que vai acontecer, em que ordem e aproximadamente quando, reduzimos parte das incertezas que precisamos administrar.

A National Autistic Society destaca que rotinas, planejamento e organização podem ajudar algumas pessoas autistas a lidar com o estresse, organizar seus níveis de energia, enfrentar mudanças e reduzir a imprevisibilidade cotidiana.

Portanto, aquilo que externamente pode parecer apenas “rigidez” pode, em determinadas situações, exercer uma importante função de organização e autorregulação.

Todo autista precisa de uma rotina rígida?

Não.

Pessoas autistas são diferentes entre si e não apresentam necessariamente os mesmos comportamentos ou necessidades de apoio.

Inclusive, os critérios diagnósticos do TEA não estabelecem que toda pessoa autista precise apresentar uma rotina rígida.

A insistência em manter padrões, a adesão inflexível a rotinas e a dificuldade com transições fazem parte de uma das categorias de comportamentos restritos e repetitivos consideradas no diagnóstico, mas essa categoria contém diferentes manifestações possíveis.

Isso significa que não gostar de mudanças não define sozinho o autismo — e lidar relativamente bem com mudanças também não é suficiente para descartá-lo.

Como a necessidade de previsibilidade pode aparecer?

Ela nem sempre significa seguir um cronograma rígido.

Pode aparecer como necessidade de:

  • fazer determinadas atividades na mesma ordem;
  • conhecer antecipadamente os detalhes de um compromisso;
  • utilizar sempre o mesmo caminho;
  • preparar-se com antecedência para situações novas;
  • manter objetos em determinada organização;
  • saber quem estará presente em um evento;
  • receber explicações claras quando um plano precisar mudar.

Os próprios critérios diagnósticos apresentam como exemplos dificuldade com transições, sofrimento diante de pequenas mudanças e necessidade de seguir determinados padrões.

Por que uma mudança inesperada pode ser tão difícil?

Imagine ter organizado mentalmente toda a sequência do seu dia e, repentinamente, precisar reconstruí-la.

Para algumas pessoas autistas, essa reorganização pode exigir um esforço significativo.

Além disso, situações novas podem trazer várias incertezas simultaneamente: o que acontecerá, quanto tempo vai durar, quem estará presente, como será o ambiente e o que será esperado da pessoa.

Pesquisadores utilizam o conceito de insistence on sameness — aproximadamente, “insistência na mesmice” — para estudar comportamentos relacionados à preferência por rotina, resistência à mudança e necessidade de manter determinados padrões. Trata-se de um fenômeno complexo e bastante variável dentro do próprio espectro.

Como ajudar diante de mudanças?

O objetivo não precisa ser eliminar todas as rotinas. Quando elas são benéficas e não estão causando prejuízos, podem cumprir uma função importante.

Quando uma mudança for necessária, algumas estratégias podem ajudar:

Antecipe quando possível. Explique o que mudará e o que continuará igual.

Torne o novo previsível. Fotos, calendários, informações escritas e recursos visuais podem ajudar algumas pessoas.

Ofereça tempo para processamento. Nem sempre uma resposta precisa ser imediata.

Construa alternativas. Ter previamente um “plano B” pode diminuir o impacto de um imprevisto.

Inclua a pessoa nas decisões. Sempre que possível, mudanças não devem simplesmente acontecer ao redor dela sem participação.

Essas estratégias são também recomendadas pela National Autistic Society para aumentar a previsibilidade diante de mudanças.

Talvez não seja apenas “rigidez”

Compreender a relação entre autismo e rotina exige olhar além do comportamento que conseguimos observar.

Para quem está de fora, repetir um caminho ou querer conhecer todos os detalhes de um compromisso pode parecer desnecessário.

Para quem precisa lidar com um mundo frequentemente imprevisível, porém, a previsibilidade pode oferecer organização, segurança e tranquilidade.

Antes de perguntar por que alguém tem tanta dificuldade em mudar, talvez possamos perguntar: o que essa previsibilidade está ajudando essa pessoa a administrar?

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