Diagnóstico do autismo: por que ele ainda pode ser tão difícil e demorado?

diagnóstico do autismo

O diagnóstico do autismo pode representar o início de uma nova compreensão sobre comportamentos, dificuldades e necessidades que acompanharam uma pessoa durante anos. Mas, para muitas famílias — e também para muitos adultos — chegar até esse diagnóstico ainda é um caminho cheio de dúvidas.

Por que algumas pessoas são identificadas ainda na primeira infância enquanto outras descobrem o autismo somente na adolescência ou na vida adulta?

A resposta começa por uma característica essencial do próprio Transtorno do Espectro Autista (TEA): o autismo não se manifesta da mesma maneira em todas as pessoas.

Por que o diagnóstico do autismo pode ser difícil?

Não existe um exame de sangue ou outro teste laboratorial que, sozinho, confirme o autismo. O processo diagnóstico envolve a análise do desenvolvimento, do comportamento e das características apresentadas pela pessoa.

O CDC – Centers for Disease Control and Prevention destaca justamente que o diagnóstico pode ser difícil porque não existe um exame médico específico para determinar a presença do TEA.

Além disso, algumas características podem ser bastante evidentes, enquanto outras são muito mais sutis.

Dificuldades persistentes relacionadas à interação e à comunicação social, comportamentos repetitivos, interesses restritos, necessidade de rotina e particularidades sensoriais estão entre os aspectos que podem ser considerados durante uma avaliação. Mas a forma e a intensidade dessas características variam de pessoa para pessoa.

Quando os sinais não correspondem ao que as pessoas esperam do autismo

Um dos grandes obstáculos pode estar na própria imagem que a sociedade construiu sobre o autismo.

Nem toda pessoa autista apresenta características facilmente reconhecíveis. Uma criança pode falar bem, frequentar uma escola regular e ainda assim enfrentar dificuldades importantes de interação, adaptação ou processamento sensorial.

O mesmo pode acontecer com um adulto que estudou, trabalha, mantém relacionamentos e passou décadas sem saber que determinadas dificuldades poderiam estar relacionadas ao espectro.

Por isso, observar apenas estereótipos pode contribuir para que algumas pessoas passem despercebidas.

Diagnóstico do autismo em meninas e mulheres merece atenção

Esse é um ponto particularmente importante.

Pesquisas vêm discutindo as dificuldades encontradas por meninas e mulheres para obter o diagnóstico. Uma revisão científica publicada e disponível no PubMed aponta que vieses no processo diagnóstico podem fazer com que algumas meninas e mulheres sejam diagnosticadas mais tarde ou sequer sejam identificadas.

Entre os fatores estudados está a chamada camuflagem social ou masking.

A pessoa pode aprender a observar e imitar determinados comportamentos sociais, preparar respostas, controlar movimentos ou esconder dificuldades para tentar se adaptar ao ambiente.

Uma revisão publicada pela Revista Neurociências, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) também aborda a relação entre camuflagem social e diagnóstico tardio de autismo em mulheres.

Isso não significa que a camuflagem ocorra exclusivamente entre mulheres. Mas demonstra por que é importante olhar além das manifestações mais conhecidas do TEA.

Autismo, TDAH, ansiedade e outras condições

Outro desafio é que algumas características podem coexistir ou se confundir com manifestações relacionadas a outras condições.

TDAH, ansiedade e outros transtornos ou condições podem fazer parte de uma história clínica complexa. Por isso, uma avaliação cuidadosa não deve partir simplesmente da pergunta “é autismo ou não?”, mas procurar compreender a pessoa de maneira mais ampla.

As diretrizes do NICE – National Institute for Health and Care Excellence, por exemplo, recomendam que uma avaliação abrangente em adultos considere história do desenvolvimento, funcionamento em diferentes ambientes, condições físicas e de saúde mental, outras condições do neurodesenvolvimento e sensibilidades sensoriais.

E quando a suspeita aparece somente na vida adulta?

Descobrir a possibilidade de estar no espectro depois dos 30, 40 ou 50 anos pode despertar muitas perguntas:

“Como ninguém percebeu antes?”

Em alguns casos, talvez os sinais estivessem presentes, mas fossem interpretados de outras maneiras. Em outros, as estratégias desenvolvidas ao longo da vida podem ter ajudado a pessoa a se adaptar — ainda que isso exigisse grande esforço.

O diagnóstico tardio não apaga a história vivida. Ao contrário: pode oferecer uma nova maneira de compreendê-la.

Suspeita não é diagnóstico

Informação de qualidade é fundamental para que famílias e adultos reconheçam situações que merecem investigação. Entretanto, listas de características, vídeos, questionários online e relatos publicados nas redes sociais não substituem uma avaliação profissional.

Se existe uma suspeita consistente de autismo, procurar profissionais capacitados para realizar uma avaliação adequada é o caminho mais seguro.

Mais do que encontrar um rótulo, o objetivo deve ser compreender necessidades, potencialidades, dificuldades e formas de oferecer suporte.

Porque receber um diagnóstico não muda quem aquela pessoa sempre foi.

Às vezes, muda algo igualmente importante: a maneira como ela passa a compreender a própria história.

Os comentários estão encerrados.