Durante muito tempo, os cuidados antes da gravidez foram associados principalmente à saúde da mulher. Hoje, porém, pesquisadores também investigam como a saúde do pai antes da concepção pode estar relacionada ao desenvolvimento dos filhos.
Esse campo inclui estudos sobre idade paterna, genética, exposições ambientais e alterações epigenéticas dos espermatozoides. Quando o assunto é Transtorno do Espectro Autista (TEA), entretanto, é fundamental compreender uma diferença: encontrar fatores associados ao autismo não significa identificar uma causa direta.
Uma das áreas mais estudadas é a idade do pai no momento da concepção.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2024, reunindo 41 estudos, encontrou associação entre idades materna e paterna mais avançadas e maior probabilidade de autismo nos filhos.
Leia a pesquisa publicada na BMC Psychology
Isso não significa que homens mais velhos terão necessariamente filhos autistas. Estamos falando de uma associação observada em populações, e não de uma relação simples de causa e efeito.
Uma das explicações investigadas envolve as chamadas mutações de novo.
São alterações genéticas que aparecem no filho sem estarem presentes da mesma maneira no DNA dos pais. Pesquisas mostram que grande parte dessas mutações germinativas é de origem paterna e que sua quantidade tende a aumentar conforme a idade do pai.
Algumas mutações de novo estão relacionadas ao TEA, mas elas representam apenas uma parte de um quadro muito mais complexo.
Portanto, seria incorreto concluir que idade paterna avançada causa autismo.
Outro campo que vem recebendo atenção é a epigenética.
Diferentemente de uma alteração na sequência do DNA, mecanismos epigenéticos participam da regulação da atividade dos genes.
Há evidências de que alimentação, determinadas exposições ambientais e outros aspectos da saúde e do estilo de vida podem modificar características epigenéticas dos espermatozoides. Pesquisadores estudam se algumas dessas alterações podem ter repercussões sobre o desenvolvimento dos descendentes.
Uma revisão sistemática publicada em 2026, por exemplo, encontrou alterações epigenéticas relacionadas à atividade física paterna antes da concepção. Porém, os estudos incluídos eram experimentais em animais, e os próprios pesquisadores destacam a necessidade de mais evidências em seres humanos.
Por isso, não é cientificamente adequado afirmar que alimentação, sedentarismo ou estresse paterno causem autismo.
Não.
O autismo é uma condição do neurodesenvolvimento complexa e heterogênea. Diferentes fatores genéticos e biológicos participam de sua origem, e a ciência continua investigando como esses elementos interagem.
Estudar fatores paternos não deve servir para transferir para o pai uma culpa que, historicamente, muitas vezes foi atribuída injustamente às mães.
O objetivo é justamente o contrário: compreender melhor o desenvolvimento humano sem procurar culpados.
Uma importante revisão publicada pelo The Lancet em 2026 chama atenção para a necessidade de incluir mais efetivamente os homens nos cuidados e nas pesquisas sobre saúde pré-concepcional.
Cuidar da alimentação, praticar atividade física, evitar substâncias nocivas e procurar acompanhamento médico quando necessário são medidas importantes para a saúde masculina independentemente da discussão sobre autismo.
Quanto mais a ciência avança, mais percebemos que falar sobre TEA exige informação, responsabilidade e cuidado para não transformar fatores de risco em culpa.