A hora das refeições pode ser, para muitas famílias de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), um dos momentos mais tensos do dia. A recusa sistemática de alimentos, a insistência em comer sempre as mesmas opções e a angústia diante de qualquer novidade no prato são queixas frequentes nos consultórios de psicólogos e pediatras. Mas há uma pergunta que persiste: isso é birra, frescura ou algo mais profundo?
A resposta é clara para a ciência: a seletividade alimentar no autismo tem raízes neurológicas e sensoriais, e entender essa diferença é o primeiro passo para ajudar a criança e acolher a família.
A seletividade alimentar é definida como um comportamento de recusa persistente e intensa a determinados alimentos, resultando em uma dieta extremamente restrita. No contexto do autismo, ela vai muito além de preferências comuns na infância.
Pesquisadores da Universidade de São Paulo identificaram que até 89% das crianças com TEA apresentam algum grau de seletividade alimentar. Esse dado, por si só, já indica que não se trata de uma questão de vontade ou educação — é um fenômeno amplamente associado ao funcionamento neurológico característico do espectro.
A criança com TEA pode recusar alimentos por causa de textura, cor, cheiro, temperatura ou até a forma como o alimento é apresentado no prato. Um alimento que parece completamente inofensivo ao olhar adulto pode gerar desconforto sensorial real para quem tem hipersensibilidade nos sistemas de processamento do cérebro.
Uma das principais causas da seletividade alimentar no autismo é o Transtorno do Processamento Sensorial, condição comum no espectro. Nele, o cérebro pode ser hipersensível (excessivamente reativo) ou hipossensível (menos reativo) a estímulos externos — e comer é uma experiência que mobiliza todos os sentidos ao mesmo tempo: tato (textura), olfato (cheiro), visão (cor e apresentação), paladar e até audição (crocância, por exemplo).
Para uma criança com TEA, essa sobrecarga sensorial no momento da refeição pode ser genuinamente insuportável. Forçar a alimentação nessas condições não apenas não resolve o problema — pode torná-lo ainda mais grave, criando associações negativas com o ato de comer.
Além do componente sensorial, a inflexibilidade cognitiva, outra característica do autismo, também contribui para a seletividade. A necessidade de manutenção de rotinas e a dificuldade de adaptação a novas situações fazem com que introduzir um alimento desconhecido seja, para a criança, uma experiência de ruptura e ansiedade.
É importante que pais e cuidadores saibam identificar quando a recusa alimentar ultrapassa os limites do desenvolvimento típico. Fique atento se a criança:
Quando a seletividade é prolongada e envolve a exclusão de grupos alimentares inteiros, podem surgir deficiências importantes de ferro, cálcio, zinco, fibras e vitaminas do complexo B — com impacto direto no desenvolvimento cognitivo e físico da criança.
A boa notícia é que a seletividade alimentar no TEA pode ser trabalhada com estratégias adequadas e apoio especializado. Algumas orientações fundamentais:
1. Nunca force a alimentação. Brigar, gritar ou obrigar a criança a comer não apenas não funciona como agrava o problema, tornando as refeições momentos de terror e rejeição ainda maiores.
2. Crie memórias positivas à mesa. Transformar o ambiente das refeições em um espaço calmo, previsível e sem pressão é essencial. Rituais e rotinas fixas podem ajudar.
3. Introduza novidades de forma gradual. Apresente o alimento novo sem exigir que a criança o coma imediatamente. Primeiro, que ela o veja. Depois, que o toque. O processo de familiarização pode levar semanas ou meses — e isso é normal.
4. Busque suporte multidisciplinar. A seletividade alimentar no TEA requer atenção de uma equipe especializada que pode incluir psicólogo, fonoaudiólogo (atuação na terapia de integração oral), nutricionista e terapeuta ocupacional. Cada caso é único e merece uma abordagem personalizada.
5. Não culpe a si mesmo. A seletividade alimentar não é resultado de falha na criação. Compreender isso ajuda os pais a saírem do ciclo de culpa e se tornarem aliados mais eficazes no processo terapêutico.
Além do trabalho direto com a criança, o acompanhamento psicológico tem papel fundamental no suporte aos pais e cuidadores. A angústia de ver um filho recusar alimentos dia após dia pode gerar estresse, conflitos familiares e sensação de impotência. O espaço terapêutico permite que a família elabore essas emoções e desenvolva estratégias mais acolhedoras e eficazes.
Na perspectiva psicanalítica, compreender as particularidades de cada sujeito no espectro — e não apenas os comportamentos isolados — é o que permite uma abordagem verdadeiramente singular e humanizada.
A seletividade alimentar no autismo não é frescura, birra, nem má educação. É uma manifestação legítima das diferenças neurológicas e sensoriais do TEA, e merece ser tratada com seriedade, empatia e conhecimento técnico.
Se você tem um filho ou familiar com autismo e enfrenta esse desafio, saiba que não está sozinho — e que existe suporte especializado disponível para ajudar.
Fonte de referência: reportagem publicada em O Globo (26/04/2026) — https://oglobo.globo.com/saude/noticia/2026/04/26/autismo-por-que-a-seletividade-alimentar-nao-e-apenas-frescura-saiba-como-lidar.ghtml
Sonia Caldas Serra é psicóloga e psicanalista, membro efetivo do Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro, especialista em autismo e autora dos livros Autismo: Reflexões sobre Novos Paradigmas e Autismo: Novas Reflexões. Atende online para todo o Brasil e no exterior.