Vivemos em um mundo onde as telas estão em toda parte — e as crianças autistas não são exceção. Tablets, smartphones, aplicativos de comunicação alternativa, jogos digitais: a tecnologia entrou nos lares e nas terapias de forma irreversível. Mas até que ponto ela é aliada do desenvolvimento? E em que momento ela se torna mais uma fonte de sobrecarga sensorial?
Essa é uma das questões mais desafiadoras que famílias e profissionais enfrentam hoje. Não há resposta simples — mas há reflexões clínicas e neurocientíficas que podem ajudar a navegar esse paradoxo.
Para muitas crianças autistas, as telas oferecem algo que o mundo social raramente consegue: previsibilidade. Os aplicativos respondem sempre da mesma forma. Os jogos têm regras claras. Os vídeos não têm ambiguidade nas expressões faciais. Essa regularidade pode ser profundamente regulatória para um sistema nervoso que se sobrecarrega com facilidade.
Estudos publicados no Journal of Autism and Developmental Disorders sugerem que, quando usado de forma intencional, o ambiente digital pode ser um espaço de aprendizagem e de regulação emocional para crianças com TEA.
Os sistemas de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) — como o aplicativo Proloquo2Go ou o PECS digital — têm transformado a vida de crianças não-verbais e suas famílias. A tecnologia, aqui, não é distração: é voz. É o meio pelo qual um sujeito pode se comunicar com o mundo e, portanto, existir nele de forma mais plena.
Do ponto de vista psicanalítico, isso é significativo: o sujeito que encontra um meio de se expressar — seja pela fala, seja pela tela — está exercendo algo da ordem do desejo. E o desejo, como sabemos, é estruturante.
Mas há um lado que não pode ser ignorado. O uso irrestrito e não supervisionado de telas pode trazer riscos reais, especialmente para crianças autistas:
Em palestra que ministrei no Grupo Psicanálise e Cultura do Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro, trouxe a questão: o cérebro humano — e especialmente o cérebro autista — está preparado para o ritmo e a quantidade de estímulos que o mundo digital impõe?
A neurociência aponta que o córtex pré-frontal — responsável pelo controle inibitório e pela regulação emocional — ainda está em desenvolvimento até os 25 anos. Pesquisas da Universidade de Harvard sobre desenvolvimento cerebral mostram que ambientes de superestimulação precoce podem interferir nesse processo, especialmente em sistemas nervosos já sensíveis, como o de muitos autistas.
Não se trata de proibir as telas — isso seria tanto impraticável quanto contraproducente. Trata-se de usar a tecnologia com intenção, mediação e limites claros. Algumas orientações clínicas:
A tecnologia é um dado da realidade contemporânea. Ignorá-la ou demonizá-la não protege nossas crianças — as prepara mal para o mundo. O que podemos e devemos fazer é oferecer mediação adulta, limites afetuosos e alternativas sensorialmente ricas ao lado das telas.
Se você tem dúvidas sobre como o uso de tecnologia está afetando o desenvolvimento do seu filho autista, o acompanhamento psicológico pode oferecer orientação personalizada e baseada em escuta real — não em fórmulas genéricas