Autismo em meninas: por que o diagnóstico tardio ainda é tão comum?

Autismo em meninas

Imagine crescer sentindo que algo em você não encaixa — nas amizades, nas conversas, nos ambientes barulhentos — mas não saber exatamente o quê. Para muitas mulheres autistas, essa é a história de décadas de vida antes de um diagnóstico que, finalmente, dá nome ao que sempre esteve ali.

O autismo em meninas e mulheres ainda é subdiagnosticado em todo o mundo. E entender por que isso acontece é o primeiro passo para mudar essa realidade.

O autismo tem cara de menino?

Historicamente, sim — ao menos nos estudos. Durante décadas, as pesquisas sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA) foram feitas predominantemente com meninos. O resultado? Os critérios diagnósticos foram moldados a partir de um perfil masculino, e o autismo feminino ficou invisível nos manuais clínicos.

Hoje sabemos que a proporção entre meninos e meninas diagnosticados com autismo é de cerca de 3 para 1 — mas pesquisadores como Simon Baron-Cohen, da Universidade de Cambridge, sugerem que essa diferença pode ser muito menor do que os números indicam. O problema não é a frequência do autismo em meninas: é que elas ficam invisíveis para os sistemas de diagnóstico.

A arte da camuflagem

Uma das razões centrais para o diagnóstico tardio é o que os pesquisadores chamam de “masking” ou camuflagem social. Meninas autistas tendem, desde cedo, a observar e imitar comportamentos sociais com muita precisão — aprendem a sorrir na hora certa, a fazer contato visual mesmo quando é desconfortável, a seguir scripts sociais que as fazem parecer “normais” aos olhos de fora.

Mas isso tem um custo enorme. A camuflagem é exaustiva. E, por anos, ela pode enganar professores, pediatras e até as próprias famílias — que observam uma menina “bem-adaptada” e não imaginam que, por dentro, ela está se esforçando ao extremo só para atravessar um dia comum.

Um estudo publicado no Journal of Autism and Developmental Disorders mostrou que meninas autistas apresentam níveis significativamente maiores de ansiedade e esgotamento justamente por causa desse esforço contínuo de adaptação social.

Os sinais que o diagnóstico tradicional deixa passar

No autismo masculino, os sinais clássicos são mais visíveis: dificuldades de comunicação evidentes, comportamentos repetitivos notórios, hiperfoco em temas muito específicos. No autismo feminino, os mesmos traços aparecem — mas de forma diferente:

  • O hiperfoco pode ser em pessoas, celebridades, animais ou relacionamentos — áreas socialmente aceitas para meninas;
  • Os rituais podem ser mais sutis: sequências de pensamento, rotinas alimentares, organização de objetos;
  • A dificuldade social aparece como ansiedade intensa, amizades instáveis ou sensação de “não pertencer”;
  • A sensibilidade sensorial pode se manifestar como incômodo com tecidos, barulhos ou ambientes cheios.

O diagnóstico tardio: alívio e luto ao mesmo tempo

Muitas mulheres recebem o diagnóstico de autismo na idade adulta — aos 30, 40 ou até mais tarde. E a reação é quase sempre ambivalente: há um alívio imenso em finalmente ter um nome para tudo aquilo. Mas há também um luto — pelos anos vividos sem entender a si mesma, pelas estratégias de sobrevivência que custaram muito.

Na clínica psicanalítica, esse momento é rico e delicado. O diagnóstico não encerra o processo — ele o abre. É a partir dele que começa o trabalho de reescrever a própria história com outros olhos.

O que fazer se você se reconhece nesse texto?

Se ao ler até aqui algo ressoou — seja em você mesma ou em uma filha, sobrinha, aluna — o caminho é buscar avaliação com profissionais que conheçam o perfil feminino do autismo. E, junto a isso, um espaço de escuta que acolha não só o diagnóstico, mas a pessoa inteira.

O Instituto Singular e outras organizações brasileiras têm avançado na discussão sobre o autismo feminino e podem ser bons pontos de partida para informação qualificada.

Reconhecer o autismo em meninas não é só um avanço científico — é um ato de justiça.

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