Autismo e Neurodesenvolvimento: O Que Realmente Acontece no Cérebro?

Autismo e Neurodesenvolvimento

Autismo Não É Erro de Criação — E Isso Precisa Ser Dito Com Clareza

Autismo não é erro de criação e não é causado por vacina. Entenda o que acontece no neurodesenvolvimento autístico com a psicanalista especialista Dra. Sonia Caldas Serra.

Uma das frases que mais ouço no consultório, dita por mães e pais em prantos, é: “O que eu fiz de errado?”

Nada. A resposta é nada.

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) não é consequência de uma criação inadequada, de falta de afeto, de excesso de telas ou de qualquer falha dos pais. Essa crença, além de cientificamente infundada, carrega um peso de culpa devastador sobre famílias que já enfrentam tantos desafios.

Também é preciso ser direta sobre outro mito que persiste nas redes sociais apesar de toda a evidência científica disponível: autismo não é causado por vacina. Nenhum estudo sério, replicado e aceito pela comunidade científica mundial sustenta essa afirmação. O que existe são décadas de pesquisas mostrando o contrário — e os danos concretos que a desinformação provoca quando afasta famílias de diagnósticos precoces e tratamentos eficazes.

Então, o que realmente explica o autismo? A resposta está no neurodesenvolvimento.

O Que É o Neurodesenvolvimento e Por Que Ele Importa?

Neurodesenvolvimento é o processo pelo qual o cérebro se forma, se organiza e se conecta — desde as primeiras semanas de gestação até a vida adulta. É um processo extraordinariamente complexo, que envolve a proliferação de neurônios, a formação de sinapses, a poda sináptica (eliminação das conexões menos utilizadas) e a mielinização das fibras nervosas.

No autismo, esse processo acontece de forma diferente, não deficiente.

Pesquisas em neuroimagem mostram que o cérebro autístico apresenta padrões distintos de conectividade: algumas regiões comunicam-se com intensidade maior do que o esperado, enquanto outras mostram menor integração entre si. Há diferenças na velocidade de crescimento cerebral nos primeiros anos de vida, na organização do córtex e na forma como o sistema nervoso processa informações sensoriais, sociais e emocionais.

Essas diferenças não surgem de um dia para o outro — estão presentes desde o início do desenvolvimento, muito antes de qualquer vacina, muito antes de qualquer escolha dos pais.

O Que Causa o Autismo, Então?

A ciência aponta para uma combinação de fatores genéticos e ambientais que influenciam o neurodesenvolvimento desde a gestação.

Do ponto de vista genético, o TEA é altamente hereditário. Estudos com gêmeos idênticos mostram concordância superior a 70%, e pesquisas de sequenciamento genético já identificaram centenas de variantes associadas ao espectro. Isso não significa que existe “um gene do autismo” — o quadro genético é diverso e multifatorial.

Os fatores ambientais também têm papel relevante, mas funcionam como moduladores da expressão genética, não como causas isoladas. Aqui entra o conceito de epigenética: o ambiente — incluindo o ambiente intrauterino, o estresse gestacional, a prematuridade extrema e a exposição a determinadas substâncias — pode influenciar como os genes se expressam. Mas esse ambiente não é a sala de estar nem a mesa do jantar em família. Não é a forma como os pais falam, brincam ou estabelecem limites.

Como escrevo em meu livro Autismo: Reflexões sobre Novos Paradigmas: quanto mais entendemos a conjugação entre predisposição genética e influências ambientais precoces, mais nos aproximamos da compreensão da individualidade do autismo — e mais nos afastamos de explicações simplistas que só geram culpa sem nenhuma utilidade clínica.

Uma Forma Diferente de Estar no Mundo

Compreender o autismo como uma variação do neurodesenvolvimento — e não como um defeito ou uma tragédia — muda tudo.

Muda a forma como os pais se relacionam com seus filhos. Muda a forma como educadores constroem suas práticas. Muda a forma como os próprios autistas se entendem e se aceitam.

A pessoa autista não está “presa num mundo próprio” por escolha ou por descuido de quem a criou. Ela processa o mundo de forma diferente: pode ter hipersensibilidade ou hipossensibilidade sensorial, pode preferir rotinas previsíveis, pode ter interesses muito intensos e específicos, pode se comunicar de maneiras que fogem ao padrão esperado. Tudo isso faz parte de uma neurologia particular — não de um fracasso.

E quando essa neurologia é compreendida e acolhida, o desenvolvimento floresce.

Diagnóstico Precoce: Por Que Ele Transforma Trajetórias?

Quanto mais cedo o TEA é identificado, mais eficaz é o suporte oferecido. Isso acontece porque o cérebro infantil tem altíssima plasticidade neural — a capacidade de reorganizar suas conexões em resposta a estímulos externos. Intervenções terapêuticas precoces, que incluam acompanhamento psicológico, fonoaudiologia, terapia ocupacional e suporte educacional, podem impactar de forma significativa a autonomia e a qualidade de vida da criança.

Isso não significa “curar” o autismo — o TEA não é uma doença a ser curada. Significa oferecer condições para que cada pessoa autista desenvolva seu potencial único com o apoio que merece.

Se Você Tem Dúvidas, Busque Informação Qualificada

Se você é pai, mãe, educador ou uma pessoa autista em busca de compreensão e suporte, saiba que o atendimento psicológico especializado pode fazer toda a diferença. Esclarecer dúvidas, desconstruir mitos e construir uma relação mais acolhedora com o diagnóstico são caminhos que se percorrem juntos — e com muito mais leveza quando há escuta qualificada ao lado.

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Por Sonia Caldas Serra — Psicanalista graduada e mestre pela PUC-Rio, Membro Efetivo do Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro (CPRJ), integrante do International Federation of Psychoanalytic Societies (IFPS), pós-graduada em neuropsicanálise e autora dos livros “Autismo: Reflexões sobre Novos Paradigmas” e “Autismo: Novas Reflexões”. Com décadas de escuta clínica especializada no Transtorno do Espectro Autista (TEA), dedica sua prática a ampliar a compreensão científica e humana sobre a neurodiversidade no Brasil e no exterior.

Referências Bibliográficas

  • Serra, Sonia Caldas. Autismo: Reflexões sobre Novos Paradigmas. Editora Appris.
  • Serra, Sonia Caldas. Autismo: Novas Reflexões. Editora Appris.
  • Organização Mundial da Saúde (OMS). Transtorno do Espectro Autista — Dados e Estatísticas.
  • Scherer, S. W. et al. Genética do autismo: variantes raras e arquitetura poligênica. Nature Genetics.
  • Geschwind, D. H. & Levitt, P. (2007). Autism spectrum disorders: developmental disconnection syndromes. Current Opinion in Neurobiology.
  • Candidature, J. et al. (2019). Brain overgrowth in autism during a critical time in development. JAMA Neurology.
  • Artigo publicado no Caderno Psicanálise do CPRJ (2007): “Autismo: Uma Abordagem Psicanalítica” — Serra, Sonia Caldas.

Sonia Caldas Serra atende online adolescentes e adultos no Brasil e no exterior. Agende sua consulta.

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