O aumento exponencial no número de diagnósticos de Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) tem gerado debates intensos na comunidade médica e académica. Recentemente, em entrevista ao programa Roda Viva, o Dr. José Salomão Schwartzman trouxe à tona questões críticas sobre o que ele denomina como uma “epidemia de diagnósticos”.
Para pais, educadores e profissionais da saúde, compreender a linha ténue entre a excentricidade comportamental e o transtorno clínico é fundamental para garantir que quem realmente precisa receba o suporte adequado.
Um dos pontos centrais da discussão é o papel das instituições de ensino. É comum que as primeiras suspeitas de TEA surjam no ambiente escolar, através da observação dos educadores. No entanto, o Dr. Schwartzman é enfático: escola não é clínica.
O papel do professor deve ser o de identificar divergências no desenvolvimento esperado para a idade e encaminhar a criança para especialistas. O risco de “medicalizar” comportamentos normais ou dificuldades pedagógicas é alto quando o olhar pedagógico tenta substituir o diagnóstico clínico.
Outro alerta importante diz respeito à mercantilização do autismo e do TDAH. Com a ausência de marcadores biológicos definitivos (como exames de sangue ou genéticos específicos), o diagnóstico permanece essencialmente clínico e subjetivo.
Esta subjetividade abriu portas para um mercado de cursos e pós-graduações que, por vezes, priorizam o lucro em detrimento da precisão científica. Segundo o especialista, o nível 1 de suporte (antigamente chamado de autismo leve) tornou-se uma zona cinzenta onde muitas pessoas com características de personalidade específicas — como hiperfoco ou timidez — acabam por ser rotuladas como autistas sem o serem de facto.
É fundamental entender que o autismo raramente vem sozinho. O chamado autismo idiopático (de causa desconhecida) frequentemente coexiste com outras condições genéticas, como:
Síndrome de Down: Cerca de 5% das crianças com Down também apresentam autismo.
X-Frágil: Uma das causas genéticas mais comuns associadas ao TEA.
TDAH: Muitas vezes as duas condições sobrepõem-se, dificultando a distinção clara entre os sintomas.
A inclusão de crianças com TEA na escola regular é um direito garantido por lei, mas a sua implementação prática enfrenta barreiras severas. A crítica reside no facto de que a inclusão muitas vezes ocorre “de trás para frente”: coloca-se a criança na sala de aula sem antes preparar a estrutura física, o currículo ou os professores.
Para que a inclusão seja efetiva e não apenas uma forma de exclusão interna (onde a criança está presente fisicamente, mas isolada com um mediador), é necessário:
Adaptação Acústica: Escolas barulhentas são ambientes hostis para autistas com hipersensibilidade sensorial.
Capacitação Docente: Professores precisam de ferramentas reais para lidar com a neurodiversidade.
Currículo Adaptado: O ensino deve ser moldado às habilidades individuais, como modelos observados em países como a Alemanha.
A grande expectativa da comunidade científica reside no próximo DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais). A tendência é a inclusão de exames de neuroimagem e testes genéticos para oferecer um diagnóstico mais assertivo e menos dependente da subjetividade do examinador.
Definir com precisão quem pertence ao espectro é vital. O diagnóstico correto não é apenas um rótulo; é a chave para o acesso a direitos, terapias adequadas e, acima de tudo, para o respeito à singularidade de cada indivíduo.
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