“Meu filho não consegue me dizer o que está sentindo.” Essa é uma das frases que mais ouço de pais e mães de crianças autistas. E por trás dela vem uma mistura de preocupação, frustração e, muitas vezes, um amor imenso que não sabe por onde entrar.
A boa notícia é que falar sobre emoções com crianças autistas é possível — mas pede caminhos diferentes dos que estamos acostumados. Veja algumas estratégias que funcionam na prática clínica e no dia a dia.
Crianças autistas sentem. Sentem muito, aliás — muitas vezes de forma mais intensa do que o esperado. O desafio está em identificar, nomear e comunicar essas emoções de forma que o outro entenda.
Isso tem um nome: alexitimia. Trata-se da dificuldade em reconhecer e descrever os próprios estados emocionais, e ela é bastante comum no espectro autista. Estudos publicados na revista Autism indicam que entre 50% e 85% das pessoas autistas apresentam algum grau de alexitimia — o que explica muito do que os pais observam em casa.
Compreender isso muda a abordagem: o objetivo não é fazer a criança “sentir mais”, mas ajudá-la a criar uma linguagem para o que já sente.
Emoções são conceitos abstratos — e abstrações costumam ser um terreno difícil para crianças autistas. Por isso, quanto mais concreto e visual, melhor.
Algumas ferramentas que funcionam bem:
O método das Social Stories, criado por Carol Gray, é amplamente reconhecido como uma das abordagens mais eficazes para ensinar navegação emocional e social para autistas.
As crianças aprendem muito pelo modelo. Quando você, como adulto, nomeia em voz alta o que está sentindo — “Estou me sentindo cansado agora”, “Fiquei com raiva quando aquilo aconteceu” — você está ensinando que emoções têm nome, que podem ser ditas, e que isso é seguro.
Parece simples, mas é uma das práticas mais poderosas que os pais podem adotar no cotidiano. Não exige recursos, aplicativos ou materiais especiais — só presença e intenção.
“Como você está se sentindo?” é uma pergunta razoável para adultos neurotípicos. Para crianças autistas, ela pode ser paralisante — há respostas demais, todas igualmente válidas, e nenhuma pista sobre qual o adulto espera.
Prefira perguntas fechadas ou com opções: “Você está com raiva ou triste?”, “Isso te deixou feliz ou desconfortável?”. Oferecer alternativas reduz a demanda de processamento e torna a comunicação mais acessível.
Muitas vezes, a emoção não vai vir em palavras — vai vir em comportamento. Uma birra, um isolamento repentino, uma recusa em entrar num ambiente: tudo isso é comunicação emocional, mesmo quando não parece.
Quando você responde com curiosidade em vez de correção — “Parece que você está muito sobrecarregado agora. Quer um tempinho sozinho?” — você está validando o estado emocional da criança e ensinando, aos poucos, que os sentimentos dela têm lugar e têm valor.
Essas estratégias são um bom começo — mas o trabalho emocional com crianças autistas é profundo e contínuo. Se você sente que as dificuldades de regulação emocional do seu filho estão impactando a qualidade de vida da família, é hora de buscar apoio especializado.
A psicoterapia — tanto para a criança quanto para os pais — pode oferecer ferramentas personalizadas, adaptadas ao perfil único de cada criança. Não existe fórmula pronta: existe escuta, observação e construção conjunta.
E isso, como tudo que importa, leva tempo — mas vale cada passo.